Alterações da personalidade e doenças psicossomáticas

Alterações ou Transtornos de Personalidade

Os transtornos de personalidade caracterizam-sepor padrões de interação interpessoais desviantes da norma, prejudicando o desempenho do indivíduo em todas as esferas de sua vida: relações profissionais, relacionamentos afetivos, interação com família, amigos, sociedade e até dificuldade de ajustamento a leis e normas. Na maior parte das vezes, os sintomas são vivenciados pelo indivíduo como “normais” (eu-sintônico), de forma que só se pode diagnosticar a existência de um padrão diferenciado de personalidade a partir de uma perspectiva exterior e através de entrevista cuidadosa e análise de biografia e padrões de comportamento repetidos ao longo do tempo.

Nestes tipos de desordens o indivíduo e comparado com ele mesmo ao longo do tempo e com a padrão de normalidade social e infere-se que existe anormalidade quando há um padrão de rigidez e inflexibilidade, que causa sofrimento para o indivíduo e para quem interage com o mesmo.

Mais do que outros transtornos mentais, os transtornos da personalidade apresentam o perigo de uma estigmatização do paciente, pois não se trata de de um transtorno de TODA a personalidade e muitas vezes o paciente sofre com juízos morais arraigados em comportamentos patológicos e disfuncionais causados pela formação de sua personalidade.

Muitas vezes, além de possuir dificuldade de reconhecer em si mesmo os próprios sintomas e problemas causados por seu comportamento, o paciente possui dificuldade na moderação de seus afetos, sendo intenso demais ou indiferente demais, com alto grau de dificuldades em relacionamentos interpessoais. Pode haver impulsividade e explosões emocionais, além de comportamentos de risco (tentativas de suicídio, cutting, etc) e tendência a manipulação e polarização das atenções para si.

Não desanime se você sofre de algum desajuste e necessite entender melhor a você mesmo e como você reage diante de frustrações e problemas. Só existe um mundo para se viver e é neste mundo que você está; se este mundo não pode mudar, mude você mesmo e não se contente com nada menos que sua própria dignidade e capacidade de interromper tais padrões de comportamento.

 

Cada personalidade é um modo singular de existência e a inteligência é nossa personalidade em ação.

 

Doenças Psicossomáticas e Somatização

A somatização é um transtorno psiquiátrico em que a pessoa apresenta múltiplas queixas físicas, localizadas em diversos órgãos do corpo, como dor, diarréia, tremores e falta de ar, mas que não são explicadas por nenhuma doença ou alteração orgânica. Geralmente, uma pessoa com doença psicossomática está frequentemente em consultas médicas ou pronto-socorros devido a estes sintomas, e o médico costuma ter dificuldade em encontrar a causa.

Esta situação também é chamada de transtorno de somatização, e é comum em pessoas ansiosas e depressivas, por isso, para o adequado tratamento é fundamental a realização de psicoterapia, além do acompanhamento psiquiátrico aliado ao clínico, pois trata-se, mais do que em qualquer patologia, de uma situação que envolve diretamente corpo e mente e, assim, o tratamento deve ser integrado e coeso.

Assim, o diagnóstico requer uma avaliação psiquiátrica e uma investigação clínica exaustiva a fim de descartar doenças graves que possam causar os mesmos sintomas causados pelo transtorno de somatização. O paciente pode apresentar tais sintomas por meses ou anos sem nunca encontrar qualquer diagnóstico ou tratamento eficaz. Além disso, existem doenças que podem ser desencadeadas ou pioradas por situações de estresse, principalmente doenças inflamatórias, como artrite reumatóide, ou doenças como fibromialgia ou síndrome do intestino irritável, por exemplo.

As manifestações de somatização mais comuns ocorrem nos seguintes órgãos alvo:

  • Estômago: dor e queimação no estômago, sensação de enjoo, piora de gastrites e úlceras gástricas;
  • Intestino: diarréia, prisão de ventre;
  • Garganta: sensação de nó na garganta, irritações mais fáceis constantes na garganta e amígdalas;
  • Pulmões: sensações de falta de ar e sufocamento, podendo simular doenças pulmonares ou cardíacas;
  • Músculos e articulações: tensão, contraturas e dores musculares;
  • Coração e circulação: sensação de dores no peito, que pode, até, ser confundida com infarto, além de palpitações, surgimento ou piora da pressão alta;
  • Rins e bexiga: sensação de dor ou dificuldade para urinar, que pode imitar doenças urológicas;
  • Pele: coceira, ardência ou formigamentos;
  • Região íntima: piora da impotência e diminuição do desejo sexual, dificuldade para engravidar e alterações do ciclo menstrual;
  • Sistema nervoso: crises de dor de cabeça, enxaqueca, alterações da visão, do equilíbrio, da sensibilidade (dormências, formigamentos) e da motricidade, podendo simular doenças neurológicas.
Possíveis causas de somatizações

Existem diversas situações que facilitam o desenvolvimento da somatização, como depressão, ansiedade e estresse. As pessoas mais afetas são as que sofrem situações como:

  • Desgaste profissional e carga horária de trabalho exagerada afetam, principalmente, pessoas que trabalham com o público como professores, vendedores e profissionais de saúde, mas estudantes e desempregados também podem sofrer com estas complicações;
  • Trauma na infância ou após acontecimentos marcantes, além de conflitos de família são algumas situações que podem deixar a pessoa com medo e desmotivada para seguir em frente;
  • Situações de violência psicológica e de desmotivação, como acontece nos casos de violência doméstica e bullying;
  • Muita ansiedade e tristeza em pessoas que não compartilham ou conversam sobre seus problemas.

Não procurar tratamento para estas situações, por dificuldade em buscar ajuda ou por achar que é uma situação normal, pode agravar os sintomas ou causar doenças físicas.

É importante que você entenda que apresentar uma somatização ou doença psicossomática não se trata de fraqueza, mas sim, um sinal de doença, ou, ao menos, um sinal de sofrimento que tem fundo emocional, mas está se manifestando através de seu corpo. Cada pessoa sofre a seu modo e manifesta seu sofrimento de forma diferente. Somatizações refletem a clara necessidade de olhar para si mesmo e procurar ajuda. É preciso que você entenda seus próprios limites e os fatores desencadeante de seus sintomas e trate eventuais problemas clínicos  que existam. O uso de antidepressivos e drogas para combater a ansiedade podem auxiliar neste tratamento e são introduzidos a depender de cada caso.

Por fim, muitas situações de sua vida podem deflagrar uma somatização. “O ser humano não é completamente condicionado e definido. Ele define a si próprio seja cedendo às circunstâncias, seja se opondo a delas. Em outras palavras, o ser humano é, essencialmente, dotado de livre-arbítrio. Ele não existe simplesmente, mas sempre decide como será sua existência, o que ele se tornará no momento seguinte” (V. Frankl). Assim, mesmo estando muito cansado e sofrendo há muito tempo por um sintoma, mesmo sofrendo por depressão, desgaste, trauma, ansiedade dentre outros, o momento seguinte ainda é seu e sofrer não é normal. Não podemos mudar o mundo mas podemos mudar a nós mesmos, nos reposicionar e parar de sofrer.

 

“Se o homem está no mundo, é então no mundo que ele se conhece”
(Merleau Ponty)